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Eles são o meu futuro!

24.06.2017

 

 

Não consigo imaginar o medo profundo que a pequena Riânia deve ter sentido ao ver a água das chuvas invadindo sua casa e submergindo tudo ao seu redor. Acredito que nunca tenha sentido o medo, ainda mais profundo, de ver os meus pertences desaparecendo diante de meus olhos e ter que decidir por apenas um deles. Um único, deixando todos os demais para trás – tal como teve que enfrentar Riânia, a menina de apenas 8 anos que foi destaque nas mídias agora nas primeiras semanas de junho.

 

Aos 8 anos, os objetos não são apenas “objetos”. Todos eles são carregados de significados, alguns reais e outros imaginários, cheios de magia. Ainda me lembro daquela camiseta verde musgo que tinha uma borboleta bordada por minha mãe. Ficava horas passando o dedo sobre as linhas e as lantejoulas brilhantes. Achava a coisa mais linda do mundo... Também me recordo com emoção de uma ou duas bonecas, principalmente de uma bem pequenininha, que vinha em uma caixinha de fósforo. Amava essa minha boneca-miniatura.  Se as águas das chuvas invadissem minha casa, acredito que teria muita dificuldade de escolher entre uma e outra. Certamente não teria a mesma perspicácia e iniciativa de Riânia.

 

Mas imagino que Riânia, embora com poucos recursos, também tinha os seus objetos mágicos. Quais eram eles? Eram brinquedos? Roupas? Um sapato especial? Ninguém perguntou a ela sobre isso... Também, pudera, na correria de sair de casa antes que as águas engolissem também os seus moradores, a pequena Riânia se lembrou dos livros. Agarrou-se à sua mochila da escola e sua imagem, toda encolhidinha em cima de uma jangada, ganhou repercussão nacional: um exemplo do valor da leitura e da educação a ser admirado e seguido. Riânia e seus livros tornaram-se um símbolo nacional!

 

Acompanhei de perto a repercussão dessa imagem. E como quase tudo em nosso país, é difícil avaliar a complexidade do que ocorreu: a precariedade das condições de vida dos moradores, o desamparo, a falta de compromisso das autoridades, aqueles que se aproveitaram da iniciativa e da bravura de Riânia para projetar a si mesmos...

 

A única heroína, sem dúvida, é a menina. Não apenas pelos desafios que teve que enfrentar durante a enchente, mas, em minha opinião, pelo amor que demonstrou ter por tão pouco. Explico.

 

Nas fotografias relativas ao caso, Riânia aparece sempre ao lado dos livros que salvou: os livros didáticos com os quais estuda e que reúnem, em um único exemplar, alfabetização, história e geografia (?!). Isso mesmo. Nada de Monteiro Lobato ou Ruth Rocha. Nada de Lalau e Laura Beatriz; tampouco de Ana Maria Machado ou Heloisa Prieto. Sem romance, poesia ou conto. Sem crônica, piada ou parlenda. Apenas os livros didáticos que lhes foram doados pelo governo federal neste ano escolar. Estes foram os livros que Riânia tinha para salvar. Os seus livros, o seu futuro.

 

Já comentei em posts anteriores sobre o valor que os livros têm em si mesmos. Basta não tê-los para amá-los e respeitá-los ainda mais. Não saber ler e escrever é algo profundamente inquietante: somos submergidos pelas águas ainda mais lamacentas da exclusão. É através do livro didático que, atualmente, a quase totalidade da população mundial aprende a ler...

 

Mas, para a maioria de nós, ele não significa nada. As crianças e os jovens “ganham” um punhado deles todo início de ano e passados alguns meses fazem questão de atirá-los no lixo. Indiferentes. Elas são. Os pais são. Os professores são. As autoridades são. Todo mundo é...

 

Mas Riânia não foi. Agarrou-se aos seus livros escolares como quem agarra a uma corda para não afundar e desaparecer em meio à enchente. E ela está certa: nada mais lhe foi oferecido para ler neste nosso país tão, tão, tão... Naquele momento, seus livros didáticos foram sua única esperança, o seu futuro.

 

Nada contra os livros didáticos. Sou autora de livros didáticos. Sei bem do esforço de muitos autores e editoras para produzir livros inteligentes e instigantes. Mas a leitura deve levar além, muito além. Na realidade, faço a defesa de que todas as crianças deveriam poder, todos os anos, ler pelo menos 10 livros literários apenas por puro prazer. Sem outro compromisso além de curtir a leitura em si. Já imaginou como estaria Riânia na jangada?! Cercada de livros, com pilhas de livros, pois os seus interesses poderiam ser tão diversos quanto à força e à esperança que demonstrou naquele momento. Mas essa não é a sua realidade. Talvez devêssemos, então, acrescentar, à lista daquilo que lhe é devido (condições sanitárias, saúde, educação, estradas etc.) alguns livros que pudessem ampliar sua imaginação e sua capacidade de compreender o mundo. Por que não?! Democratizar a leitura e o acesso aos livros. Mas à qual autoridade deste país interessa debater sobre livros e sobre o direito à leitura a esta altura do campeonato?!

 

Só resta àqueles, que podemos desfrutar da leitura, a consciência do quão importante ela é em nosso dia a dia e na formação dos nossos filhos, para além da escola.

 

P.S. A imagem que ilustra este post é uma criação artística feita a partir da fotografia de Valter Rodrigues da menina Riânia Silva (extraída de www.blogtenoriocavalcanti.com.br - 17/jun/2017).

 

 

 

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